Raças zebuínas no Brasil: o que cada uma tem de melhor e como a genética as transformou
Nelore, Gir, Guzerá, Brahman, Tabapuã, Indubrasil, Sindi e Cangaian compartilham a rusticidade típica do Zebu, mas cada raça tem vocação e pontos fortes próprios. Conheça o perfil de cada uma e veja como registro, avaliações genéticas e genômica ajudam a tirar o máximo delas.
A base comum: um boi feito para o calor
Toda raça zebuína tem alguns traços em comum: cupim desenvolvido, pele pigmentada e solta, pelagem curta e eficiência para dissipar calor. Bovinos de origem indiana suam com mais facilidade e produzem menos calor interno que os europeus em clima quente, além de resistirem melhor a ectoparasitas. Sobre essa base, a seleção feita no Brasil puxou cada raça para um lado: carne, leite, dupla aptidão ou cruzamento industrial.
Nelore: o motor da pecuária de corte
O Nelore vem do Ongole, gado do atual estado de Andhra Pradesh, no sudeste da Índia. O nome brasileiro lembra o antigo distrito de Nellore, de onde saíram os animais. Tem pelagem branca ou cinza sobre pele preta e orelhas curtas.
Seus trunfos são a rusticidade, a habilidade materna e a facilidade de parto. Com o padrão racial definido em Uberaba em 1938 e décadas de seleção, o Brasil virou o maior criador da raça e exportou genética para vários países das Américas. Existe ainda o Nelore Mocho, que dispensa a descorna, já que o caráter mocho é dominante e se espalha rápido pelo rebanho.
Gir: a referência do leite tropical
Originário do estado de Gujarat, no oeste da Índia, o Gir chama atenção pela testa bem convexa, pelas orelhas longas e pendentes e pelos chifres que nascem para trás e depois sobem em espiral. A pelagem vai do vermelho ao amarelo e aparece muitas vezes chitada.
No Brasil, a raça se especializou no leite. O Gir Leiteiro tem um marco importante: o Programa Nacional de Melhoramento do Gir Leiteiro, criado em 1985 pela Embrapa Gado de Leite em parceria com a associação de criadores da raça, foi apontado pelos próprios pesquisadores como o primeiro do mundo a usar teste de progênie em uma raça zebuína leiteira. O Gir também é a base zebuína do Girolando, cruzamento com o Holandês muito usado nas bacias leiteiras tropicais.
Guzerá: porte, força e dupla aptidão
Descendente do Kankrej, do norte de Gujarat, o Guzerá figura entre os zebuínos mais pesados. Tem pelagem do cinza-prata ao cinza-escuro, chifres grandes em forma de lira e perfil levemente côncavo. No Brasil, mostrou ótima adaptação ao semiárido nordestino.
Sua marca é a dupla aptidão. Há linhagens selecionadas para corte e outras para leite, e a Embrapa coordena com os criadores um programa nacional de melhoramento do Guzerá para leite, com teste de progênie e núcleo de transferência de embriões. Touros da raça podem ter avaliação genética tanto para leite quanto para corte.
Brahman: o zebu que voltou ao Brasil
O Brahman foi formado nos Estados Unidos, principalmente no Texas e na costa do Golfo do México, a partir de linhagens Guzerá, Nelore e Gir, com contribuição menor do Krishna Valley. Parte dos reprodutores usados saiu justamente do Brasil, em embarques dos anos 1920 que seguiram pelo México. A associação norte-americana da raça foi criada em 1924.
Animal de porte intermediário, pelagem geralmente cinza e muita musculatura, o Brahman é usado sobretudo em cruzamentos industriais, onde soma rendimento de carcaça e adaptação. A raça chegou oficialmente ao Brasil nos anos 1990 e hoje participa dos julgamentos da ExpoZebu.
Tabapuã: mocho e feito no Brasil
O Tabapuã nasceu na Fazenda Água Milagrosa, no município paulista de mesmo nome. Tudo começou nos anos 1940 com um único bezerro naturalmente mocho, provavelmente mestiço de Nelore e Guzerá, registrado como T-0. A seleção, feita por acasalamentos em linha e com controle de pesos desde o início, fixou o caráter mocho. A ABCZ aprovou o padrão racial no fim de 1970, com homologação ministerial em 1971, e a raça foi reconhecida em caráter definitivo dez anos depois.
Animal compacto, de pelagem branca ou cinza, o Tabapuã é conhecido pela precocidade, pela boa conformação de carcaça e pela docilidade. A ausência de chifres facilita o manejo.
Indubrasil: herança dos cruzamentos do Triângulo
Formado no Triângulo Mineiro no início do século XX, sobretudo a partir de Gir, Guzerá e Nelore, o Indubrasil chegou a se chamar Induberaba. Suas orelhas longas são a marca mais visível; a cabeça é média, de perfil levemente convexo, e a pelagem costuma ser branca ou cinza.
A raça se destaca pela habilidade materna, pela docilidade e pelo bom ganho de peso em confinamento. Nos anos 1940, quando Indubrasil e Gir eram maioria no rebanho zebuíno nacional, animais brasileiros dessas linhagens ajudaram a formar o Brahman. Hoje a raça é forte no Nordeste.
Sindi: pequeno, vermelho e eficiente
O Sindi vem da província de Sind, no atual Paquistão, e se espalhou por dezenas de países pela rusticidade e pela produção de leite. É um animal de porte pequeno, pelagem vermelha intensa e grande eficiência em ambientes quentes e secos. No Brasil, ganhou espaço no semiárido como raça de dupla aptidão e tem participado de provas de produção de leite a pasto conduzidas pela Embrapa Cerrados. O padrão racial brasileiro foi estabelecido em 1961.
Cangaian: força de tração do sul da Índia
O Cangaian é a versão brasileira do Kangayam, raça de Tamil Nadu famosa pela força de tração, pela resistência à seca e pela longevidade. Os animais são cinza, com regiões mais escuras nos touros, chifres pretos e corpo compacto. No Brasil o rebanho é pequeno, mas a raça tem registro genealógico na ABCZ e é lembrada como fonte de rusticidade e de melhoria de carcaça.
Genética e melhoramento: onde está o ganho
Escolher a raça é só o começo: o lucro está em identificar os melhores indivíduos dentro dela. No Brasil, o registro genealógico garante a origem dos animais e alimenta as avaliações genéticas. Com elas, o criador compara touros e matrizes pelas DEPs (diferenças esperadas na progênie) para peso à desmama e ao sobreano, perímetro escrotal, idade ao primeiro parto e outras características de valor econômico.
A genômica acelerou esse processo, porque permite estimar o mérito de animais jovens antes que tenham filhos avaliados. Nos cruzamentos, o Zebu oferece outra vantagem: por ser geneticamente distante dos taurinos, gera alta heterose, com bezerros mais pesados, vacas mais férteis e animais mais longevos.
Fontes consultadas
- Oklahoma State University – Breeds of Livestock, “Nelore Cattle” — breeds.okstate.edu/cattle/nelore-cattle
- Oklahoma State University – Breeds of Livestock, “Gir Cattle” — breeds.okstate.edu/cattle/gir-cattle
- Oklahoma State University – Breeds of Livestock, “Kankrej Cattle” — breeds.okstate.edu/cattle/kankrej-cattle
- Oklahoma State University – Breeds of Livestock, “Brahman Cattle” — breeds.okstate.edu/cattle/brahman-cattle
- Oklahoma State University – Breeds of Livestock, “Red Sindhi Cattle” — breeds.okstate.edu/cattle/red-sindhi-cattle
- Oklahoma State University – Breeds of Livestock, “Kangayam Cattle” — breeds.okstate.edu/cattle/kangayam-cattle
- American Brahman Breeders Association – Breed History — americanbrahman.org/about/breed-history/
- Embrapa – Panetto et al., “Providing genetics for the dairy industry in the tropics – the Brazilian Dairy Gir Breeding Program” — www.alice.cnptia.embrapa.br/alice/bitstream/doc/1150078/1/Providing-ge…
- Embrapa – Programa Nacional de Melhoramento do Guzerá para Leite (página da publicação) — www.embrapa.br/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1144948/programa-naci…
- ABCT – Associação Brasileira dos Criadores de Tabapuã, “Raça Tabapuã” — www.tabapua.org.br/raca-tabapua
- ABCZ/CRPBZ – Indubrasil — zebu.org.br/Home/Secao/9329-Indubrasil
- ABCZ/CRPBZ – Cangaian — zebu.org.br/Home/Secao/9695-Cangaian
- ABCZ – História do Registro Genealógico — www.abcz.org.br/produtos-e-servicos/area-tecnica/registro-genealogico/…
- ABCZ – “ABCZ faz homenagem aos pioneiros do zebu” — www.abcz.org.br/noticias/noticia/21040/abcz-faz-homenagem-aos-pioneiro…
- ABCZ – “ABCZ inaugura oficialmente a 91ª ExpoZebu” — www.abcz.org.br/noticias/noticia/31156/abcz-inaugura-oficialmente-a-91…
- Canal Rural – “Saiba diferenciar as raças zebuínas” — www.canalrural.com.br/pecuaria/saiba-diferenciar-racas-zebuinas-10396/
- Biblioteca AGPTEA – “Raças de bovinos de corte” (apostila em PDF) — www.bibliotecaagptea.org.br/zootecnia/bovinocultura/livros/RACAS%20DE%…
- Associação Brasileira dos Criadores de Sindi – material institucional da raça (trecho indexado) — www.sindi.org.br/wp-content/uploads/2023/10/book-sindi.pdf