Do Malabar ao Triângulo Mineiro: como o Zebu chegou ao Brasil e fez de Uberaba a sua capital
O gado indiano desembarcou no Brasil ainda no século XIX, quase como curiosidade, mas foram os criadores do Triângulo Mineiro que transformaram o Zebu em projeto. A partir da década de 1890, viagens diretas à Índia, exposições pioneiras e a criação de um livro de registro colocaram Uberaba no centro da pecuária tropical.
Um boi diferente em terras tropicais
Quem observa hoje um rebanho de Nelore no Cerrado talvez nem imagine que, há pouco mais de um século, a pecuária brasileira era formada quase toda por bovinos de origem europeia (Bos taurus taurus). Eram animais trazidos desde o período colonial, sem o preparo natural de quem evoluiu nos trópicos.
O Zebu (Bos taurus indicus) carrega esse preparo no corpo: cupim, barbela desenvolvida, pele escura e solta, pelos curtos e grande capacidade de suar. São características moldadas ao longo de muitos séculos no subcontinente indiano, onde calor intenso, pasto pobre e parasitas fazem parte da rotina. Foi essa bagagem de adaptação que acabou mudando a história da pecuária no Brasil.
Os primeiros registros: chegadas quase por acaso
As primeiras notícias de gado indiano no país são anteriores ao interesse comercial. Um dos relatos mais antigos, divulgado pelo Marquês de Abrantes em obra publicada em 1834, fala de dois animais vindos da costa do Malabar que ficaram em Salvador, em 1813, deixados por uma embarcação inglesa. Fontes internacionais sobre a raça Nelore registram outro episódio parecido na Bahia, em 1868, quando dois bovinos Ongole a caminho da Inglaterra acabaram vendidos no porto.
Foi só na segunda metade do século XIX, porém, que as importações passaram a ser intencionais. Os fazendeiros de café do Vale do Paraíba fluminense, com recursos e contatos no exterior, trouxeram reprodutores indianos para suas propriedades. Por algumas décadas, essas fazendas foram o principal núcleo de zebuínos do país.
A chegada a Uberaba
Ninguém sabe com exatidão quando o primeiro Zebu pisou em Uberaba. Há relatos que falam em 1875, 1887 e 1889, e os animais vieram principalmente de fazendas fluminenses. Na memória local, ganhou destaque o touro Lontra, comprado no Rio de Janeiro por Antônio Borges de Araújo, da Fazenda Cassu, e lembrado por muitos como o primeiro zebuíno da cidade.
O Triângulo Mineiro tinha o que faltava aos cafeicultores: vocação pastoril, grandes extensões de pasto e uma rede de comércio de gado que ligava o Brasil Central aos mercados do Sudeste. Os mestiços de Zebu cresciam bem, aguentavam a seca e valorizavam as boiadas. Em pouco tempo, os criadores da região deixaram de ser compradores e passaram a buscar os animais na origem.
A corrida à Índia
O entusiasmo não foi unânime. Na década de 1890, intelectuais e criadores paulistas criticavam publicamente a introdução do gado indiano, e criadores de Uberaba responderam com uma moção de protesto publicada na imprensa em 1893. No mesmo período começaram as viagens diretas à Índia, sem intermediários. O nome mais associado a essa fase é o de Teófilo de Godoy, que partiu de Araguari e esteve no país asiático em 1893 e em 1904. Outros estudos situam o início das compras regulares dos criadores do Triângulo na Índia a partir de 1898.
As expedições se multiplicaram no começo do século XX. Uma firma comercial de Uberaba, criada em 1904 sob a liderança do coronel José Caetano Borges, enviou à Índia o imigrante português Angelo Costa, que voltou com dezenas de reprodutores. Pesquisas sobre o tema contam que ele passou a fotografar os animais antes do embarque, para que os compradores pudessem avaliá-los em Uberaba e no Rio de Janeiro. Em 1906, a Fazenda Cassu recebeu um lote de 46 animais indianos e, no mesmo ano, fez a primeira exposição particular de gado da região, ponto de partida da tradição que levaria à ExpoZebu.
Dessa primeira fase, a mais intensa de todas, saíram os plantéis que formaram as bases do rebanho zebuíno brasileiro. O Kankrej deu origem ao que aqui se chamou Guzerá; o Ongole, da região do antigo distrito de Nellore, virou o Nelore; e o Gir veio do estado de Gujarat, no oeste indiano. Também chegaram outras raças que não se firmaram no país.
Pausas, retomadas e o fim das importações de animais vivos
O primeiro grande ciclo terminou em 1921, quando as importações foram suspensas por motivo sanitário: o temor de que a peste bovina, presente na Ásia, entrasse no Brasil. Em 1930, houve uma única importação autorizada, importante para a consolidação do Nelore e responsável também pela vinda de exemplares de Sindi. Entre as décadas de 1950 e 1960, novas missões foram à Índia. A última e mais lembrada aconteceu em 1962 e trouxe reprodutores Ongole que deram origem a linhagens célebres do Nelore brasileiro, como as de Karvadi, Taj Mahal e Godhavari.
O balanço impressiona. Estima-se que algo em torno de 6 mil animais tenham sido importados oficialmente da Índia ao longo de todo esse período. A partir dessa base pequena, o sangue zebuíno passou a estar presente em cerca de 80% do rebanho bovino brasileiro, segundo levantamentos acadêmicos e da própria ABCZ.
Do registro à capital do Zebu
Importar não bastava; era preciso garantir a origem dos filhos daqueles animais. Por isso, em 16 de fevereiro de 1919, criadores do Triângulo fundaram em Uberaba o Herd Book da Raça Zebu, primeiro passo da estrutura que mais tarde se tornaria a Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ). Ao mesmo tempo, Uberaba virou laboratório de cruzamentos entre raças indianas. Desses experimentos nasceu, nas primeiras décadas do século XX, o gado que ficou conhecido como Induberaba e foi oficializado como Indubrasil.
Com a proibição das importações de animais vivos, o melhoramento passou a depender da seleção feita aqui. Esse trabalho deu tão certo que o Brasil virou fornecedor de genética zebuína para outros países tropicais. Já no século XXI, a entrada de embriões indianos, autorizada em 2008, voltou a aproximar o rebanho nacional das suas origens e a ampliar a base genética das raças.
Um legado que segue no pasto
A trajetória do Zebu no Brasil mistura ousadia comercial, observação de campo e persistência. O que começou com fazendeiros atravessando oceanos atrás de touros acabou definindo a cara da pecuária tropical. Uberaba, ponto de encontro dessa história, ganhou com justiça o título de capital do Zebu. Para o pecuarista, conhecer esse caminho ajuda a entender por que adaptação, registro e seleção seguem na base de um rebanho produtivo.
Fontes consultadas
- Arquivo Público de Uberaba – *Uberaba: 200 anos no coração do Brasil*, p. 441 — app.codiub.com.br/drive_root/arquivopublico/Uberaba200AnosNoCoracaodoB…
- Arquivo Público de Uberaba – *Uberaba: 200 anos no coração do Brasil*, p. 442 — app.codiub.com.br/drive_root/arquivopublico/Uberaba200AnosNoCoracaodoB…
- Boletim Goiano de Geografia – “As atividades modernas da genética bovina no Brasil: funções e lógicas da especialização em Uberaba (MG)” — doi.org/10.5216/bgg.v32i2.21075
- Historia Agraria – Joana Medrado, “The Indian zebu in Brazilian lands” (consultado por meio do resumo e de trechos indexados) — doi.org/10.26882/histagrar.075e05m
- Oklahoma State University – Breeds of Livestock, “Nelore Cattle” — breeds.okstate.edu/cattle/nelore-cattle
- G1 Triângulo Mineiro – “Uma das primeiras fazendas de Uberaba criadoras de zebu é tombada” — g1.globo.com/minas-gerais/triangulo-mineiro/noticia/2016/12/uma-das-pr…
- ABCZ – História — www.abcz.org.br/a-abcz/historia
- ABCZ – História do Registro Genealógico — www.abcz.org.br/produtos-e-servicos/area-tecnica/registro-genealogico/…