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Nelore no cocho: o que a pesquisa mostra sobre a raça nos confinamentos brasileiros

Base da terminação intensiva no país, o Nelore tem desempenho bem medido no confinamento. Estudos de Embrapa e universidades mostram onde a raça se destaca, onde perde para o cruzado e como a seleção para eficiência alimentar pode mudar o resultado no cocho.

· 6 min de leitura

Bovinos zebuínos brancos de tipo Nelore alinhados se alimentando em um cocho de concreto num curral de confinamento, sob luz suave da manhã
Imagem ilustrativa gerada por IA

O confinamento virou parte estrutural da pecuária de corte brasileira. Estimativas feitas por métodos diferentes indicam que o país terminou mais de 8 milhões de bovinos em confinamento em 2025. O Beef Report 2026, da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), calculado com dados de abate do IBGE, aponta 9,9 milhões de cabeças, cerca de 21% dos abates do ano. O Censo de Confinamento 2025, levantamento setorial feito a campo, contou 9,25 milhões, e uma projeção de consultoria chegou a 8,3 milhões. E, na maior parte desses currais, quem está no cocho é o Nelore.

A raça que domina os currais

Uma pesquisa com nutricionistas que atendem confinamentos, conduzida pela Unesp e publicada em 2021 na Revista Brasileira de Zootecnia, dá a dimensão: cerca de 85% dos clientes desses profissionais confinavam gado Nelore, e aproximadamente 52% trabalhavam com algum tipo de cruzado.

Segundo o mesmo levantamento, os machos inteiros, categoria predominante, entravam com cerca de 376 kg, saíam com 556 kg após aproximadamente 107 dias de cocho e ganhavam, em média, 1,58 kg por dia. O Nelore consumia 10,52 kg de matéria seca por dia, equivalentes a 2,26% do peso vivo, contra 11,45 kg (2,43%) dos cruzados.

Num ensaio da Embrapa Pecuária Sudeste com a Esalq/USP, em São Carlos (SP), 82 novilhos Nelore ganharam em média 1,60 kg por dia, com consumo de 9,87 kg de matéria seca, e apresentaram rendimento de carcaça em torno de 56%.

Eficiência alimentar: o que é o CAR

Ganhar peso é só metade da conta; a outra é quanto o animal come para isso. O consumo alimentar residual (CAR) é a diferença entre o que o boi consome e o que se esperaria pelo seu peso e ganho. CAR negativo indica um animal mais eficiente.

No mesmo trabalho de São Carlos, os novilhos de baixo CAR comeram 17,9% menos matéria seca que os de alto CAR, com ganho de peso equivalente, e não diferiram em rendimento de carcaça nem em área de olho de lombo. Na Embrapa Gado de Corte, em Campo Grande (MS), os novilhos mais eficientes consumiram 6,93 kg de matéria seca por dia, contra 8,84 kg dos menos eficientes, com ganho e carcaça semelhantes. Na Universidade Federal de Goiás, touros de baixo CAR também comeram menos sem perder ganho nem mudar de temperamento.

Há uma nuance importante. Tanto em São Carlos quanto em Goiás, os animais mais eficientes depositaram menos gordura subcutânea. Para quem precisa entregar acabamento ao frigorífico, isso pede atenção na hora de selecionar.

E a característica é herdável. O Instituto de Zootecnia de São Paulo, em artigo no Journal of Animal Science (2014), estimou herdabilidade de 0,33 para o CAR em Nelore, valor que permite progresso genético consistente.

Dietas de alto concentrado e adaptação ao cocho

A dieta do confinamento brasileiro ficou mais energética. No levantamento da Unesp, o teor médio de concentrado nas dietas de terminação chegou a 83,3%, e 97,2% dos nutricionistas recomendavam de 71% a 90% de concentrado.

Dieta mais rica exige transição cuidadosa: o método mais usado foi uma sequência de dietas de adaptação, com média de 19,2 dias até a ração final, e os autores lembram que essa transição não deve durar menos de 14 dias. As doenças respiratórias foram o problema sanitário mais citado, por 71,4% dos profissionais. Como a alimentação está entre os itens mais pesados do custo, segundo estudo com coautoria da Embrapa, um boi que come menos para ganhar o mesmo faz diferença no caixa.

Nelore puro ou cruzado com Angus?

O F1 Angus × Nelore costuma ganhar mais no cocho. Em experimento da Universidade Federal de Viçosa (UFV) no Journal of Agricultural Science (2018), os cruzados consumiram mais, ganharam mais, foram mais eficientes e acumularam mais gordura subcutânea que os Nelore. Já um resumo da Universidade Federal de Lavras (UFLA) no Journal of Animal Science (2017) confirmou o maior ganho e a maior cobertura de gordura do cruzado, mas não encontrou vantagem em eficiência, e o Nelore teve maior rendimento de carcaça.

Na maciez, a genética zebuína pesa. Estudo da UFV na Revista Brasileira de Zootecnia (2011) mediu maior força de cisalhamento, ou seja, carne mais firme, no Nelore que nos cruzados com Angus e com Simental, mas concluiu que todos têm potencial para carne aceitável quando abatidos jovens. Trabalho conjunto de UFV e UFLA associou essa diferença à maior atividade da calpastatina, enzima que freia o amaciamento pós-abate, no Nelore em comparação com o Angus.

Temperamento também é desempenho

Boi agitado rende menos. Em pesquisa com 44 Nelore terminados em confinamento, publicada no Journal of Animal Science (2015), os animais de temperamento adequado tiveram maior ganho diário, melhor eficiência, carcaça mais pesada, maior área de olho de lombo e mais marmoreio que os excitáveis. Estes apresentaram mais cortisol, o hormônio do estresse, e mais hematomas na carcaça.

A seleção ajuda, mas devagar. O Instituto de Zootecnia estimou herdabilidades de 0,08 para o escore de temperamento e de 0,12 para a velocidade de fuga em Nelore (Journal of Animal Science, 2023).

Sombra e bem-estar no curral

No Nelore puro, tolerante ao calor, a sombra nem sempre vira ganho de peso. Em experimento da Universidade Estadual de Goiás, feito entre julho e outubro, telas de sombreamento não mudaram consumo, ganho nem carcaça, com o clima dentro da zona de conforto. Na Embrapa Pecuária Sudeste, com a USP, o desempenho também foi igual, mas os bois sombreados tiveram frequência respiratória menor e beberam menos água. Já no semiárido do norte de Minas, a Universidade Estadual de Montes Claros registrou maior consumo e maior ganho nos currais com sombra natural, de árvores.

Nos cruzados, a resposta tende a ser mais nítida: em estudo da Unesp com bovinos zebuíno × taurino, uma cobertura bem dimensionada reduziu os sinais de estresse térmico e rendeu carcaças mais pesadas, com o mesmo consumo.

Na prática, a sombra é garantia de bem-estar com retorno incerto no Nelore puro e mais provável em cruzados, regiões quentes e confinamentos de verão. Água limpa à vontade e lida calma no curral e no embarque completam a lista; estudos brasileiros associam manejo agressivo no pré-abate a mais hematomas na carcaça. No período das águas, drenagem e mais espaço por animal ajudam a conter o barro, mas os dados nacionais ainda são escassos.

Seleção pensando no confinamento

Na avaliação genética do Nelore do terceiro trimestre de 2026, o Programa de Melhoramento Genético de Zebuínos (PMGZ), da ABCZ, utilizou 286.294 registros de ultrassonografia de área de olho de lombo, 282.946 de acabamento e 129.098 de marmoreio, além de marcadores moleculares de 698.096 animais. As herdabilidades usadas foram de 0,33, 0,20 e 0,22, respectivamente.

A eficiência alimentar entra pelas provas de desempenho. No Teste de Desempenho e Eficiência Alimentar de 2026, etapa do Programa Nacional de Avaliação de Touros Jovens (PNAT) da ABCZ, 73 touros Nelore, Nelore Mocho e Tabapuã passaram por 56 dias de prova efetiva. O índice final atribuiu 35% de peso ao CAR, 30% ao ganho diário, 15% à área de olho de lombo, 5% ao acabamento e 15% à avaliação visual. Estudo da UFV com a Embrapa Gado de Corte (2024) indicou que 56 dias bastam para avaliar consumo e CAR em Nelore.

O Nelore responde bem ao cocho quando há nutrição ajustada, ambiente confortável, manejo tranquilo e seleção dirigida. E o animal mais eficiente já existe dentro do próprio rebanho, com ferramentas cada vez mais acessíveis para encontrá-lo.

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Fontes consultadas

  1. Revista Brasileira de Zootecnia (2021) – The 2019 Brazilian survey on nutritional practices provided by feedlot cattle consulting nutritionists (Unesp) — doi.org/10.37496/rbz5020200189
  2. Abiec – Beef Report 2026 (dados de 2025; estimativa elaborada com base em abates do IBGE) — abiec.com.br/wp-content/uploads/2026/05/Beef_Report_2026_v0106b.pdf
  3. Censo de Confinamento Brasil 2025 (levantamento setorial) — www.dsm-firmenich.com/content/dam/dsm/tortuga/pt_BR/documents/censo-co…
  4. Benchmarking Confina Brasil 2025 (levantamento de consultoria; projeção nacional) — www.scotconsultoria.com.br/imprimir/noticias/59878
  5. Embrapa Pecuária Sudeste / Esalq-USP – Desempenho e características de carcaça de bovinos Nelore em função do consumo alimentar residual (SBZ, 2012) — www.alice.cnptia.embrapa.br/alice/bitstream/doc/929916/1/PROCI2012.000…
  6. Embrapa Gado de Corte – Características de carcaça de novilhos Nelore de diferentes classes de consumo alimentar residual (Congresso Brasileiro de Zootecnia, 2011) — www.alice.cnptia.embrapa.br/alice/bitstream/doc/914619/1/Caracteristic…
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  8. Journal of Animal Science (2014) – Selection for feed efficiency traits and correlated genetic responses in feed intake and weight gain of Nellore cattle (Instituto de Zootecnia) — doi.org/10.2527/jas.2013-6682
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  11. Journal of Animal Science (2017, resumo) – Performance and carcass traits of Nellore and Nellore × Angus steers fed whole shelled corn diets (UFLA) — doi.org/10.2527/asasann.2017.132
  12. Revista Brasileira de Zootecnia (2011) – Beef quality traits of Nellore, F1 Simmental × Nellore and F1 Angus × Nellore steers (UFV) — doi.org/10.1590/s1516-35982011001200037
  13. UFV / UFLA – Calpastatin activity and beef tenderness of Nellore and Angus cattle fed two feeding strategies (59º ICoMST, 2013) — digicomst.ie/wp-content/uploads/2020/05/2013_03_03.pdf
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  15. Journal of Animal Science (2023) – Genetic parameters for behavioral and growth traits of Nellore cattle (Instituto de Zootecnia / USP) — doi.org/10.1093/jas/skad280
  16. Semina: Ciências Agrárias (2016) – Performance of Nellore males under different artificial shading levels in the feedlot (UEG) — doi.org/10.5433/1679-0359.2016v37n4supl1p2623
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  18. PLOS One (2025) – Shade provision and its influence on water intake and drinking behaviour of Nellore cattle in feedlot in a tropical environment (Embrapa Pecuária Sudeste / USP) — doi.org/10.1371/journal.pone.0331238
  19. Italian Journal of Animal Science (2021) – Effect of shading strategies on feedlot-finished Nellore bulls in the semi-arid region of Brazil (Unimontes) — doi.org/10.1080/1828051X.2021.1912662
  20. Frontiers in Veterinary Science (2023) – Economically sustainable shade design for feedlot cattle (Unesp) — doi.org/10.3389/fvets.2023.1110671
  21. Ars Veterinaria (2021) – Manejo pré-abate de bovinos e ocorrência de contusões na carcaça — doi.org/10.15361/2175-0106.2021v37n4p192-196
  22. Revista Agrária Acadêmica (2019) – Perdas econômicas por lesões de manejo pré-abate em bovinos de corte — doi.org/10.32406/v2n32019/185-192/agrariacad
  23. ABCZ/PMGZ – Avaliação genética da raça Nelore, 3º trimestre de 2026 — www.abczstat.com.br/comunicacoes/sumario/apresentacao/raca_nelore.pdf
  24. ABCZ – PNAT divulga touros classificados no Teste de Desempenho e Eficiência Alimentar (2026) — www.abcz.org.br/noticias/noticia/31367/pnat-divulga-touros-classificad…
  25. Custos e @gronegócio on line (2021, coautoria Embrapa) – Impacto da alimentação de bovinos de corte terminados em confinamento — www.alice.cnptia.embrapa.br/alice/bitstream/doc/1137333/1/ca-2021.pdf

Texto revisado por Revisor_Uberaba.