Gir Leiteiro: como uma raça indiana virou base do leite tropical brasileiro
Gado das colinas de Gujarat, o Gir foi lapidado no Brasil por quatro décadas de avaliação genética. Hoje sustenta o Girolando, entra na era da genômica e voltou a despertar o interesse da própria Índia.
Poucas histórias da pecuária brasileira mostram tão bem o peso da seleção quanto a do Gir Leiteiro. Uma raça zebuína formada no oeste da Índia atravessou o oceano, foi escolhida a dedo por criadores e pesquisadores e se tornou peça central da produção de leite em clima quente.
Das colinas de Gir para o mundo
O nome da raça vem da floresta de Gir, seu habitat de origem, na península de Kathiawar, região de Saurashtra, estado de Gujarat. Um estudo de caracterização publicado pela FAO localiza o solar da raça nas colinas e matas de Gir, abrangendo os distritos de Junagadh, Bhavnagar, Rajkot e Amreli. Na região, o animal também recebe nomes locais, como Bhodali, Desan, Gujarati, Kathiawari, Sorthi e Surti.
O mesmo trabalho descreve o Gir como raça leiteira de destaque na Índia, tolerante a condições de estresse e resistente a diversas doenças tropicais, além de criada tradicionalmente por comunidades de pastores que se deslocam com o rebanho em busca de pasto. Nos rebanhos avaliados, a produção média em 300 dias foi de 1.930 litros, com teor de gordura entre 4,7% e 5%. O registro oficial de raças indianas, mantido pelo ICAR-NBAGR (Escritório Nacional de Recursos Genéticos Animais), lista o Gir entre as raças bovinas reconhecidas do país, com Gujarat como região de origem.
A chegada ao Brasil e a virada para o leite
O Gir veio ao Brasil em importações de gado indiano, com papel pioneiro de criadores do Triângulo Mineiro. Material técnico da Embrapa registra que, nas primeiras décadas do século XX, a raça foi muito usada em cruzamentos e passou a ser a preferida na formação do mestiço leiteiro nacional.
A seleção para leite começou na década de 1930, em fazendas particulares, com escolha dos melhores animais dentro do próprio rebanho. Instituições públicas também participaram: a Embrapa cita trabalhos iniciados em 1938 em uma estação experimental em Umbuzeiro (PB) e, em 1948, em outra em Uberaba (MG), hoje ligada à Epamig. Desse esforço de criadores e órgãos de pesquisa nasceu o Gir Leiteiro, linhagem do Gir voltada à produção de leite.
Um programa de melhoramento com 41 anos
A virada decisiva veio em 1985, com o Programa Nacional de Melhoramento do Gir Leiteiro (PNMGL), parceria entre a Associação Brasileira dos Criadores de Gir Leiteiro (ABCGIL) e a Embrapa Gado de Leite, com apoio da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ). O objetivo é identificar e selecionar animais geneticamente superiores para a produção de leite e de seus componentes, além de características reprodutivas, de conformação e de manejo.
O coração do programa é o teste de progênie: touros jovens têm a qualidade avaliada pelo desempenho das filhas em rebanhos colaboradores espalhados pelo país. Segundo a Embrapa, o Brasil dispõe de touros Gir Leiteiro provados para produção de leite desde 1993. O Sumário Brasileiro de Touros de 2026 marca os 41 anos do PNMGL e reúne números expressivos: 182.319 animais avaliados, 92.486 deles com registros de lactação, e 679 touros provados, com a divulgação do 34º grupo do teste de progênie.
A edição de 2026 trouxe também uma reformulação do Índice de Produção do Gir Leiteiro (IPGL). Além do volume de leite, o índice considera produção de gordura e de proteína, menor idade ao primeiro parto e menor parentesco médio, este último uma forma de controlar a endogamia. No sumário de fêmeas, os pesos informados são 3 para leite, 2 para gordura, 2 para proteína e 1,5 para idade ao primeiro parto. O documento também apresentou, pela primeira vez, uma avaliação genética para produção de oócitos, característica de interesse para quem usa biotecnologias reprodutivas como a fertilização in vitro.
A genômica acelera o ganho genético
Desde 2016, a ABCGIL e a Embrapa usam ferramentas genômicas no PNMGL. A ideia é avaliar machos e fêmeas ainda jovens, antecipar resultados que o teste de progênie levaria anos para entregar e encurtar o intervalo de gerações. Já são mais de 60 mil animais Gir Leiteiro genotipados, o maior banco de genótipos da raça no mundo, segundo os responsáveis pelo programa.
Os resultados têm sido consistentes. Em estudos da equipe da Embrapa, a correlação entre a classificação genômica dos touros e a classificação obtida depois do teste de progênie chegou a 96%. Na avaliação de fêmeas de 2026, a acurácia média das predições para produção de leite de animais jovens foi de 78,9%. Em outubro de 2025 saiu o primeiro sumário genômico de touros da raça. O segundo, publicado em fevereiro de 2026, já incluiu o 36º grupo do teste de progênie.
A base do Girolando
O Gir Leiteiro tem também papel estrutural no rebanho mestiço. A partir de 1979, estudos de cruzamento do Ministério da Agricultura apontaram o produto Holandês × Gir como o de melhor resultado para as condições brasileiras. Por meio da Portaria nº 79, de 7 de fevereiro de 1996, o Ministério oficializou a raça Girolando, de composição 5/8 Holandês e 3/8 Gir. O programa de melhoramento do Girolando, em parceria da Embrapa Gado de Leite com a associação da raça, foi implantado em 1997.
Calor, rusticidade e carrapato
A fama de rusticidade tem respaldo científico. O carrapato-do-boi (Rhipicephalus microplus) é o principal ectoparasita do gado em áreas tropicais, e as raças zebuínas são geneticamente mais resistentes a ele do que as europeias. Um estudo publicado em 2018 no Journal of Dairy Science, feito com uma população experimental F2 Gir × Holandês da Embrapa, mostrou que a maioria dos animais classificados como resistentes carregava dois alelos de origem Gir nas regiões do genoma associadas à resistência. Já entre os suscetíveis predominavam alelos de origem holandesa. A herdabilidade estimada para a contagem de carrapatos foi de 0,40 na estação chuvosa e de 0,54 na seca, o que indica espaço para seleção.
Somam-se a isso a tolerância ao calor e a resistência a doenças tropicais descritas na literatura indiana, trunfos importantes em sistemas a pasto.
O interesse internacional e o Gir na Índia
A caracterização publicada pela FAO cita Brasil, México, Estados Unidos e Venezuela entre os países que importaram o Gir e o criam com sucesso. Mais recentemente, o fluxo se inverteu. Em janeiro de 2024, a ABCZ informou a maior exportação de sêmen bovino brasileiro para a Índia: 40 mil doses de touros Gir Leiteiro, adquiridas por um órgão indiano de desenvolvimento leiteiro.
Na Índia, o Gir mantém posição de destaque. O relatório de raças do 20º Censo Pecuário, divulgado pelo governo indiano, aponta o Gir entre as raças que mais contribuem para o total de bovinos indígenas do país, ao lado de Lakhimi e Sahiwal.
O percurso do Gir Leiteiro mostra que adaptação e produtividade podem andar juntas quando há seleção contínua, registro de dados e ciência aplicada. É uma raça indiana na origem e brasileira no melhoramento, e continua no centro do leite tropical.
Compartilhe este artigo
Fontes consultadas
- Embrapa Gado de Leite – PNMGL: Sumário Brasileiro de Touros, 9ª Avaliação Genômica de Touros (2026) — www.embrapa.br/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1186367/programa-naci…
- Embrapa Gado de Leite – PNMGL: 2º Sumário Genômico de Touros (Documentos 303, 2026) — www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/handle/doc/1184675
- Embrapa Gado de Leite – PNMGL: Sumário Brasileiro de Fêmeas, 9ª Avaliação Genômica (2026) — infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/handle/doc/1190622
- Embrapa – Raças e tipos de cruzamentos para produção de leite (Circular Técnica 98) — www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/737102/1/CT98Rac…
- Embrapa Rondônia – A raça Gir Leiteiro em Rondônia — www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/921798/1/A-raca-…
- Revista Brasileira de Zootecnia – Genetic evolution of milk yield, udder morphology and behavior in Gir dairy cattle — www.scielo.br/j/rbz/a/PJH8YkgM76xYfVm9jqMSfxb/?lang=en
- ICAR-NBAGR – Cattle Breeds of India (registro de raças) — nbagr.res.in/cattle-breed
- FAO – Animal Genetic Resources Information: The Gir cattle breed of India – characteristics and present status — www.fao.org/4/y4924t/y4924t07.htm
- Journal of Dairy Science (2018) – Genome-wide association studies for tick resistance in Bos taurus × Bos indicus crossbred cattle — www.journalofdairyscience.org/article/S0022-0302(18)30859-2/fulltext
- Governo da Índia (PIB) – Breed-wise Report of Livestock and Poultry, 20º Censo Pecuário — pib.gov.in/PressReleseDetailm.aspx?PRID=1824647
- ABCZ – Gir Leiteiro: Brasil realiza maior exportação de genética bovina para a Índia (jan. 2024) — www.abcz.org.br/noticias/noticia/29518/gir-leiteiro--brasil-realiza-ma…