ABCZ e ExpoZebu: como Uberaba organizou o melhoramento genético do Zebu
Desde o Herd Book de 1919 até as avaliações genômicas, as entidades sediadas em Uberaba construíram o maior sistema de registro e seleção de zebuínos do mundo. A ExpoZebu, vitrine desse trabalho, reúne todos os anos criadores, técnicos e delegações estrangeiras no Parque Fernando Costa.
Origem: proteger a pureza dos importados
Quando os criadores do Triângulo Mineiro começaram a trazer bovinos da Índia, logo perceberam um problema: sem controle de origem, ninguém conseguia comprovar a ascendência dos filhos daqueles animais caros. A resposta veio em 16 de fevereiro de 1919, com a criação em Uberaba do Herd Book da Raça Zebu, um livro para anotar a genealogia dos zebuínos.
Em 18 de junho de 1934, esse serviço passou à recém-criada Sociedade Rural do Triângulo Mineiro (SRTM). Pouco depois, um convênio com o Ministério da Agricultura deu à entidade a tarefa oficial de executar o registro genealógico das raças de origem indiana em todo o território nacional. Em 1938 foram aprovados os primeiros padrões raciais, de Gir, Nelore, Guzerá e Indubrasil. Vieram depois os padrões do Sindi, em 1961, do Tabapuã, no início dos anos 1970, e, mais tarde, do Cangaian e do Brahman.
Em 25 de março de 1967, a SRTM se transformou na Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), nome que refletia o alcance nacional que o trabalho já tinha.
Registro genealógico: a espinha dorsal
O registro é mais do que um certificado. Ele forma a matriz de parentesco que sustenta qualquer avaliação genética séria. Em 1971, a ABCZ reorganizou os livros de registro e criou o Livro Fechado, que reuniu os animais já registrados e seus descendentes, ao lado de livros destinados a fêmeas racialmente definidas e a grupos genéticos ainda em verificação. Com isso, cada raça passou a ter uma população de referência mais bem conhecida.
Segundo a entidade, a ABCZ registra hoje mais de 600 mil zebuínos por ano e mantém o maior banco de dados do mundo sobre a espécie. Com o tempo, o serviço incorporou novas tecnologias: em 2009 o Ministério autorizou o registro de clones de raças zebuínas, e em 2013 começou a coleta de amostras para um banco de DNA, que reforça a verificação de paternidade.
Das provas zootécnicas ao PMGZ
O registro mostra quem é filho de quem; as provas mostram quanto cada animal produz. A ABCZ começou a medir desempenho em 1968, com o Controle do Desenvolvimento Ponderal (CDP), em que técnicos pesam bezerros e animais jovens na própria fazenda em idades padronizadas. Em 1972 vieram as Provas de Ganho em Peso (PGP), que comparam machos jovens em condições semelhantes, e em 1976 o Controle Leiteiro.
No início dos anos 1990, esse conjunto passou a se chamar Programa de Melhoramento Genético de Zebuínos, o PMGZ. Hoje o programa acompanha cerca de 3.400 rebanhos de todas as raças zebuínas e já ultrapassou a marca de 18 milhões de animais avaliados, segundo dados divulgados pela própria ABCZ.
Parceria com a pesquisa e o salto estatístico
Um capítulo decisivo foi a parceria com a Embrapa. Em 1984, o convênio entre as duas instituições produziu o primeiro Sumário Nacional de Touros das Raças Zebuínas. A metodologia evoluiu depressa: em poucos anos foram adotados os modelos mistos com o chamado modelo touro, e a partir de 1996 as avaliações passaram a usar o modelo animal, que considera o parentesco de toda a população.
Em 2013, a ABCZ montou um núcleo próprio de pesquisa e desenvolvimento para processar as avaliações genéticas de corte em larga escala dentro da sede. Depois veio a genômica, que permite estimar com mais precisão o valor genético de animais jovens. O Sumário traz as DEPs de cada reprodutor e um índice de seleção, o iABCZ, que combina características de crescimento, habilidade materna, precocidade sexual e perímetro escrotal em um único número.
O leite também tem seus programas. O Gir Leiteiro conta desde 1985 com um teste de progênie conduzido pela Embrapa Gado de Leite com a associação da raça, usando dados genealógicos registrados pela ABCZ.
ExpoZebu: a vitrine que virou referência mundial
A tradição de expor o Zebu em Uberaba é antiga. Em 1906 a Fazenda Cassu fez a primeira exposição particular da região. Em 1935 foi oficializada a exposição agropecuária do Triângulo Mineiro, organizada pela SRTM num recinto da Rua São Sebastião. Em 1941 foi inaugurado o Parque Fernando Costa, que mais tarde passou a pertencer à ABCZ e virou sua sede.
A ExpoZebu ganhou caráter internacional em 1994. Em 2026, a 91ª edição foi realizada de 25 de abril a 3 de maio e teve 2.605 animais inscritos nos julgamentos de Brahman, Gir, Gir Leiteiro, Guzerá, Guzerá Leiteiro, Indubrasil, Nelore, Nelore Mocho, Nelore Pelagens, Sindi, Tabapuã e Guzolando, além do tradicional concurso leiteiro.
Os julgamentos de pista também mudaram. Se nas primeiras décadas o que contava eram detalhes de padrão racial, como o tamanho das orelhas, hoje a avaliação morfológica dialoga com dados de desempenho e com o mérito genético medido pelo PMGZ. Desde 2008, a ABCZ também promove a ExpoGenética, feira dedicada aos programas de melhoramento do país.
Influência além das fronteiras
O trabalho feito em Uberaba ultrapassou as fronteiras do Brasil cedo. Nos anos 1920, touros Gir, Guzerá e Nelore embarcados no Brasil seguiram pelo México até o Texas e ajudaram a formar o Brahman norte-americano. O Nelore selecionado aqui foi exportado para países como Argentina, Paraguai, Venezuela e México, além da América Central.
A ABCZ criou em 2003 um projeto de divulgação internacional do zebu brasileiro e esteve à frente da criação de uma federação internacional de criadores de Zebu que, segundo a entidade, reúne cerca de 20 países. Em 2008, depois de anos de negociação, os criadores brasileiros foram autorizados a importar embriões zebuínos da Índia, o que trouxe sangue novo às linhagens.
O que isso significa para o criador
Para quem cria Zebu, o sistema construído em Uberaba é uma ferramenta prática. Registrar os animais, pesar os bezerros e consultar as DEPs na hora de escolher um touro ajuda a transformar intuição em decisão técnica. Um trabalho que começou com um livro de anotações em 1919 hoje sustenta a genética de grande parte do rebanho tropical do planeta.
Fontes consultadas
- ABCZ – História — www.abcz.org.br/a-abcz/historia
- ABCZ – História do Registro Genealógico — www.abcz.org.br/produtos-e-servicos/area-tecnica/registro-genealogico/…
- ABCZ – Manual do Serviço de Registro Genealógico das Raças Zebuínas e PMGZ (trecho indexado) — zebu.org.br/PortalUploads/Docs/606.pdf
- ABCZ – PMGZ, Apresentação do Programa — www.abcz.org.br/pmgz/apresentacao
- ABCZ – Sumário Nacional de Touros, apresentação — www.abczstat.com.br/comunicacoes/sumario/apresentacao/Sumario-apresent…
- ABCZ – Sumário, introdução geral (PDF) — www.abczstat.com.br/comunicacoes/sumario/apresentacao/apresentacao_ger…
- ABCZ – “Noite de comemoração aos 50 anos do PMGZ…” — www.abcz.org.br/noticias/noticia/26337/noite-de-comemoracao-aos-50-ano…
- ABCZ – “ABCZ inaugura oficialmente a 91ª ExpoZebu” — www.abcz.org.br/noticias/noticia/31156/abcz-inaugura-oficialmente-a-91…
- ABCZ/CRPBZ – História do Parque Fernando Costa — zebu.org.br/Home/Secao/9340-Historia-do-Parque-Fernando-Costa
- Embrapa – Panetto et al., “Providing genetics for the dairy industry in the tropics – the Brazilian Dairy Gir Breeding Program” — www.alice.cnptia.embrapa.br/alice/bitstream/doc/1150078/1/Providing-ge…
- Oklahoma State University – Breeds of Livestock, “Brahman Cattle” — breeds.okstate.edu/cattle/brahman-cattle
- Oklahoma State University – Breeds of Livestock, “Nelore Cattle” — breeds.okstate.edu/cattle/nelore-cattle
- Boletim Goiano de Geografia – “As atividades modernas da genética bovina no Brasil…” — doi.org/10.5216/bgg.v32i2.21075
- G1 Triângulo Mineiro – “Uma das primeiras fazendas de Uberaba criadoras de zebu é tombada” — g1.globo.com/minas-gerais/triangulo-mineiro/noticia/2016/12/uma-das-pr…
- Canal Rural – “Saiba diferenciar as raças zebuínas” — www.canalrural.com.br/pecuaria/saiba-diferenciar-racas-zebuinas-10396/
- ABCT – Associação Brasileira dos Criadores de Tabapuã, “Raça Tabapuã” — www.tabapua.org.br/raca-tabapua