O Regulador Público da Matriz
Em 1874, Uberaba ganhou um relógio público, instalado numa das torres da Igreja Matriz e pago por subscrição entre moradores. Chamado de "regulador público", ele marcava a hora oficial da cidade numa época em que cada lugar seguia o próprio Sol. Substituído em 1900 por um mecanismo suíço, deixou histórias sobre como a cidade aprendeu a contar o tempo.
Uma comissão, um relojoeiro e uma subscrição
Em 23 de janeiro de 1873, oito cidadãos de Uberaba se reuniram em comissão para contratar o relojoeiro Florêncio Forneri. A ideia, puxada pelo então tenente-coronel Antônio Borges Sampaio, era assentar um relógio público em uma das torres da Igreja Matriz. Faziam parte do grupo, entre outros, o vigário Carlos José dos Santos e o capitão Manuel Rodrigues da Cunha.
O contrato, assinado naquele mesmo dia, era detalhado. Forneri entregaria um relógio construído por ele, com corda para oito dias e dois mostradores de sete a oito palmos de diâmetro, ou seja, algo entre 1,5 e 1,8 metro. A máquina deveria ter força para bater num sino de vinte a trinta arrobas e tocaria as horas, as meias horas e a repetição das horas. O preço combinado foi de três contos e duzentos mil-réis, com garantia de cinco anos. Carpinteiros, ferreiros e pedreiros ficavam por conta da comissão. O dinheiro saiu de uma subscrição feita entre diversos moradores.
O regulador foi inaugurado em 20 de janeiro de 1874. O sino foi doado pelo capitão Manuel Rodrigues da Cunha. Fundido no Rio de Janeiro, ele trazia gravada a dedicatória "para o relógio desta Matriz", com a data da inauguração.
Por que "regulador"?
Hoje, o celular mostra a hora certa sozinho. No século XIX, porém, não existia hora nacional. Cada cidade usava a hora local, medida pela posição do Sol: o meio-dia era o momento em que o Sol passava mais alto no céu daquele lugar. Como o Sol "anda" de leste para oeste, duas cidades distantes tinham relógios com alguns minutos de diferença.
Nesse cenário, o relógio da torre era a referência de todos. Ele regulava a hora pública: era por ele que os moradores acertavam os relógios de casa e de bolso, e era o seu sino que marcava o ritmo do comércio, das repartições e da igreja. Além disso, "regulador" era o nome dado aos relógios de precisão usados como padrão para acertar os outros.
Um relógio mecânico, porém, adianta ou atrasa. Por isso alguém precisava conferi-lo sempre. De 1874 até 7 de janeiro de 1888, Borges Sampaio cuidou do regulador sem receber nada por isso e o acertava todos os dias pela hora local. Como registra o livro, depois que ele deixou a tarefa a cidade "nunca mais" teve a hora certa e passou a seguir a hora de São Paulo. Segundo o livro Uberaba – História, Fatos e Homens, de Antônio Borges Sampaio, a hora de São Paulo, então adotada na cidade, ficava 12 minutos à frente da hora local de Uberaba.
A situação só mudou de vez com a hora legal. Uma lei de 1913 dividiu o Brasil em fusos horários e, a partir de 1º de janeiro de 1914, os relógios oficiais, até então acertados pela hora local, passaram a seguir uma hora comum, contada a partir do meridiano de Greenwich.
O relógio suíço de 1900
O primeiro regulador funcionou até 1899, quando as duas torres antigas da Matriz foram demolidas. Para substituí-lo, comerciantes do Rio de Janeiro e de São Paulo fizeram doações, e um novo mecanismo foi encomendado na Suíça, seguindo as indicações de Forneri. O próprio Forneri o instalou em 1900. O relógio continuou batendo as horas e as meias horas no mesmo sino de 1874.
Nem todos ficaram satisfeitos. Em agosto de 1900, um cronista do Lavoura e Commercio comemorou que "já funciona o regulador público", mas reclamou que a campainha soava fraca e que o mostrador, menor que o antigo, só permitia ler as horas de perto, no largo da Matriz. Para ele, o mecanismo suíço seria excelente "para uma cidade pequena", mas Uberaba crescia em todas as direções.
Fontes
- Antônio Borges Sampaio, Uberaba – História, Fatos e Homens, 3ª ed. revista, Revista Dimensão Edições, 2021, p. 43–44, 142–143, 166–167 (nota 9) e 389 ("No Regulador Público").
- Lavoura e Commercio, edição de 30/08/1900, p. 1 (coluna "Pennadas Furtivas").
- Decreto nº 2.784, de 18 de junho de 1913, e Decreto nº 10.546, de 5 de novembro de 1913, sobre a hora legal (Observatório Nacional e Planalto).
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Fontes consultadas
- Observatório Nacional – Decreto n. 10.546, de 5 de novembro de 1913 (hora legal) — www.gov.br/observatorio/pt-br/assuntos/areas-de-atuacao/tempo-e-freque…
- Presidência da República (Planalto) – Decreto nº 2.784, de 18 de junho de 1913 — planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/historicos/dpl/DPL2784-1913.htm