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Os trilhos da Mogiana e a Uberaba que olhava para o futuro

Em abril de 1889, a Companhia Mogiana de Estradas de Ferro chegou a Uberaba depois de anos de disputa política para que os trilhos passassem pela cidade. A ferrovia ligou o Triângulo Mineiro a São Paulo, acelerou o comércio e mudou a paisagem urbana. Dela restam estações, prédios e memórias espalhados pelo município.

3 min de leitura · publicado em 16 de outubro de 2026

Ilustração de época de locomotiva a vapor chegando a pequena estação de tijolos enfeitada, com cerrado ao fundo
Imagem ilustrativa gerada por IA

Uma companhia paulista de olho no sertão

A Companhia Mogiana foi fundada em 1872, em plena expansão do café paulista. Seu objetivo era levar trilhos de Campinas rumo ao interior. Com o tempo, a empresa passou a mirar Minas Gerais e Goiás, regiões de gado e de produção agrícola que dependiam de tropas e carros de boi para chegar aos portos e às grandes cidades.

Para Uberaba, que já era um entreposto comercial importante no caminho para Goiás e Mato Grosso, ter ou não ter ferrovia era uma questão de sobrevivência econômica.

A luta para não ficar de fora

A chegada do trem não foi automática. Em 1882, um decreto imperial autorizou a Mogiana a levar a linha até a margem do Rio Grande, mas não mencionava Uberaba. Surgiu então o temor de que os trilhos seguissem direto para Araguari e Catalão e deixassem a cidade de lado. Políticos mineiros ligados aos interesses uberabenses pressionaram durante anos. O contrato que garantiu a extensão até Uberaba só foi assinado em 1º de outubro de 1884.

As obras avançaram pela travessia do Rio Grande, em Jaguara, na divisa com São Paulo. A ponte começou a ser construída em 1887, e de lá a linha seguiu em direção à cidade.

A festa de 1889

A expectativa era enorme. A cidade fez reformas e preparou festejos para receber a locomotiva. Dias antes da inauguração, o Conde d'Eu, marido da Princesa Isabel, visitou as obras e passou rapidamente pela cidade. Os relatos da época, retomados por jornais locais no cinquentenário, em 1939, falam de cerca de mil pessoas assistindo ao assentamento dos últimos trilhos, de bandas tocando hinos e de muita comemoração.

A inauguração oficial da estação e do trecho de Jaguara a Uberaba é registrada em 23 de abril de 1889. Faltavam poucos meses para a Proclamação da República.

Uma cidade transformada

O trem encurtou distâncias que antes levavam semanas. Gado, cereais e mercadorias passaram a circular com muito mais rapidez entre o Triângulo e o mercado paulista, e Uberaba reforçou seu papel de polo regional. A população cresceu, novos estabelecimentos comerciais surgiram e o bairro da Boa Vista, onde ficava a primeira estação, ganhou movimento.

Houve até planos de transformar Uberaba no ponto de partida de uma ferrovia rumo a Cuiabá. O projeto foi abandonado depois que a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil passou a seguir para o oeste a partir de Bauru, nos primeiros anos do século XX. A linha principal da Mogiana continuou para o norte e chegou a Araguari.

Estações que mudaram de lugar

A primeira estação funcionou de 1889 a 1948. Naquele ano, a companhia retificou o traçado e tirou os trilhos da área central da cidade. Uma segunda estação foi construída na nova linha, mas funcionou por pouco tempo: em 1962, o serviço mudou outra vez de endereço, para a estação que existe até hoje. O antigo prédio original acabou demolido. Parte das construções de apoio, como um armazém de mercadorias, sobreviveu, embora bastante modificada.

A Mogiana operou até 1971, quando foi incorporada à Fepasa. O transporte de passageiros na região foi diminuindo até acabar no fim do século XX.

Memória sobre trilhos

A herança ferroviária aparece em vários pontos do município. Uma locomotiva da Mogiana, tombada pelo conselho municipal de patrimônio, está exposta em praça pública. No distrito de Peirópolis, a antiga estação virou o Museu dos Dinossauros. Projetos de memória, como o Estação de Memórias, reúnem fotos e relatos desse período. Para quem visita a cidade, seguir os rastros da antiga linha é uma boa forma de entender como o apito do trem ajudou a desenhar a Uberaba de hoje.

Fontes consultadas

  1. Estação de Memórias – "Sede de futuro: a luta pela ferrovia" — estacaodememorias.org.br/uberaba/sede-de-futuro-a-luta-pela-ferrovia/
  2. Estação de Memórias – Mapa interativo de Uberaba — estacaodememorias.org.br/mapainterativouberaba/
  3. Universidade Federal de Uberlândia (Repositório) – "Patrimônio ferroviário em Uberaba: preservação e usos" — repositorio.ufu.br/bitstream/123456789/40043/1/Patrim%c3%b4nioFerrovi%…
  4. Arquivo Público de Uberaba – livro "Uberaba: 200 anos no coração do Brasil", p. 361 — app.codiub.com.br/drive_root/arquivopublico/Uberaba200AnosNoCoracaodoB…
  5. Estações Ferroviárias do Brasil – Uberaba — www.estacoesferroviarias.com.br/mogiana_triangulo/uberaba.htm

Texto revisado por Revisor_Uberaba.